sábado, 24 de julho de 2010

"Crianças não devem brincar com coisas mortas"

Em tempos de vampiros vegetarianos, mórmons mercenárias e "Orgulho e Preconceito... e Zumbis" (sim, isso é um livro!), venho falar da diva Anne Rice. Sim, aquela senhora de cabelo channel e atual católica fervorosa.
No anos 70, a sua filhinha morreu de leucemia e, em um estranho processo de luto, a mulher se tranca no quarto por uma semana e sai de lá com um livro escrito. Esse livro é "Entrevista com o Vampiro". Pois é, tem um filme com o Tom Cruise (me surpreendeu e à autora também), o Brad Pitt e a Mary Jane Kirsten Dunst. O livro fez bastante sucesso e nos anos 80 surgiu um segundo, "O Vampiro Lestat"; e esse foi só o começo da sequência de dez livros que compõem "As Crônicas Vampirescas".

Eu resolvi ler "Entrevista com o Vampiro" há uns três anos. Baixei o e-book pra saber se era bom, mas acabei terminando de ler o livro no computador mesmo porque até a metade ainda não sabia se tinha gostado. No ano passado resolvi avançar na coleção. Baixei (eu sempre faço isso, a medida do possível, pra saber se vou gostar e evitar gastar uma fortuna em um livro do qual irei amaldiçoar o autor pelo resto da vida) e não consegui largar - se eu tivesse visto que o livro tinha quase 800 páginas, eu teria ido à livraria antes-, depois corri pro terceiro até que tomei vergonha na cara e resolvi comprá-los (viu? Não é pirataria de livro q).
O fato é que, apesar da maioria dos fãs não gostarem muito, "Entrevista com o Vampiro" ainda é a obra-prima da moça, a meu ver. Imagine o que aconteceria se Clarice Lispector resolvesse escrever um livro sobre vampiros... Aliás, ela foi a tradutora do livro. "Entrevista..." é um livro bastante intimista até porque é narrado pelo personagem mais melancólico e introspectivo (poucos gostam dele e a maioria chamam-no de emo, mas ele é o alter-ego da autora \fikdik) e conta com a presença de um dos personagens mais ousados e criativos que já li: Cláudia, a criança-vampiro. A pobrezinha ficou presa pra sempre no corpo de uma criança de 5 anos, ou seja, desenvolvendo-se mental e não fisicamente. Os fãs geralmente a odeiam e olhando pela idéia da história é até plausível tal ódio, mas literariamente ela é excelente!
Anne Rice imortalizou sua filhinha ao criar a Cláudia, esse foi meio que seu processo de superação.

No próximo livro, "O Vampiro Lestat" temos a história do famoso Lestat (o Tom Cruise, gente...) que não é o vilão o qual foi pintado no livro anterior. No final desse livro já tem um gancho pro terceiro que é divertidíssimo e bem mais movimentado que os anteriores. Ao contrário da costumeira narração em primeira pessoa, "A Rainha dos Condenados" (ESQUEÇAM AQUELE FILME NOJENTO) é contada sob vários pontos de vista e isso dá um tom bem vivo para a história, aquela impressão de várias coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Poréééém....já nesse livro vem aquela idéia de alguns vampiros serem super-poderosos, super-fortes, super-duros (!!! sem conotações, por favor), super-mimimi e isso tira toda a graça de como o vampirismo foi mostrado em "Entrevista...": quase uma metáfora. Parecia mais com a idéia de que se os seres humanos vivessem para sempre eles se comportariam daquele jeito.
O quarto livro, "A História do Ladrão de Corpos", é a mega-aventura-blockbuster da Anne Arroz. Divertido, com umas sacadas legais e bastante engraçado com um pouco de drama que não faz mal a ninguém. No quinto, "Memnoch", ela já dá mostras de voltar ao catolicismo, mas com uma visão bem própria e isso fez com que eu o pulasse. Depois de ler os devidos spoilers fui direto para o sexto que conta a história do personagem mais complexo das Crônicas, "O Vampiro Armand". O motivo para eu pular "Memnoch" é que não me agrada muito histórias polêmicas envolvendo religião, o máximo pra mim são teorias sobre o fim do mundo e conspirações de que o Papa João Paulo I foi assassinado. Parece um motivo tolo, mas eu tenho argumentos que seriam bem chatos de expor aqui.

Depois de ler o sexto, e gostar muito, ainda arrisquei umas olhadelas em "Merrick" (o sétimo) até desistir de vez. Tava na cara que a própria Anne já estava de saco cheio da saga que criara. Ela ainda acabou com a importância de alguns personagens e inventou de misturar a história das Crônicas com sua outra série, "A Hora das Bruxas", e isso foi imperdoável u.ú
E depois de se converter, tentou converter o Lestat - seu protagosnista irreverente - também. Chega a ser triste, sério mesmo.

Outra coisa que irrita um pouco é a impressão de que a Arroz era meio incerta com seus personagens. Um exemplo é a transformação de um Lestat, nobre francês sem dinheiro e quase analfabeto que vivia pra cuidar da família, em um semi-deus que pegava todas enquanto ainda era humano. Mesmo que o livro que conta a vida dele diga o contrário.

Felizmente, algumas contradições podem ser explicadas pelo fato de que cada livro trazer, primorosamente, o ponto de vista de um personagem e eles, geralmente, vivem tentando se redimir pelo que cometeram. Existe uma parcela de fãs que nem chega a discutir isso, enxergando como verdade absoluta uma narração em primeira pessoa. Acho isso um absurdo, ainda mais pra quem é brasileiro, logo tem "Dom Casmurro" na História da Literatura. Mas isso é outra história...

Não juguem mal, eu realmente amo a história e deixo os livros do 1º ao 6º recomendadíssimos (mesmo eu não tendo lido o 5º). A forma com que ela desenvolve as relações interpessoais dos personagens (e esse acaba sendo o ponto chave de suas histórias) é fantástica, o enredo é interessante, os personagens cativantes e a forma como ela consegue mudar a narração de acordo com o personagem é inacreditável *-*
E pelo menos ninguém brilha que nem uma fada =DD


Ela era super gótica antes :^)


Coisas que você não precisava saber:
- O Lestat tá looonge de ser meu personagem preferido. Esse lugar é do Armand, depois o Louis.
- Claudinha é DIIIIVA *-*
- Cliquem na tirinha e LEEEIAM. Ela é mais que digna \o/ (sim, aquilo é o Edward e o Lestat)

sábado, 3 de julho de 2010

Através do Espelho


Um dos momentos traumáticos da minha infância, foi quando, no Jardim de Infância, a assistente da professora amarrou um barbante vermelho no braço direito e um verde no braço esquerdo. Depois ela disse: o braço direito é o que vocês usam pra desenhar; levantem-no, por favor.
Nesse momento eu elevo com toda convicção meu braço...esquerdo. Os coleguinhas ao lado já me olharam estranho e provavelmente pensaram que eu era burra ¬¬
E ela continuou: a fitinha desse braço é vermelha.
Eu sabia que aquela cor era verde, oras.
Cheguei louca em casa, até que mamãe me ensinou corretamente. Pois é, eu sou canhota.

Isso foi só o começo da minha vida no mundo dos destros. Lutando contra abridores, réguas, tesouras, fecho de colar, espiral de caderno, bater seu braço no do colega ao lado, ver o fiscal da sua sala de prova te encarar só porque você se virou em sua cadeira pra destro, entre TUDO outros. Sem contar os momentos constrangedores em que ia ao quadro resolver uma questão, ou alguém reparava quando eu estava escrevendo, logo ouvia os comentários: "hehehe, é canhotinha" ,"olha! Ela escreve com o braço esquerdo", "como você consegue?", "eca!! Isso é feio!".
E eu ainda era/sou chamada de nerd e tenho asma. Mas eu tenho amigos, tá?

E, continuando meus pseudo comentários sobre Copa do Mundo, algo que me irritou ontem naquele jogo (vocês sabem qual é ;-;) foi o jargão eterno do Galvão (pássaro maldito) repetindo um milhão de vezes que o Robben só sabia ir pro meio, carregar com a perna esquerda e chutar. Esse "esquerda" tá sobrando na frase! Quem acompanha futebol, creio eu que repara nessas coisas de perna e tal; e quem não acompanha não está nem aí pra isso (apesar de ser uma constatação óbvia).
E ao final descontei minha raiva no Felipe Melo (mas, analisando friamente, sei que ele não foi exatamente o culpado pelo Brasil perder. Aquele jogo já tava ruim desde muito antes).

Hoje piorou: "e lá vai Mr.Olhos Estranhos Özil chutar com a perna esquerda", e ficou nisso um tempão até abreviaram a frase pra "e ele prepara com a canhotinha".



CANHOTINHA? MELDELS, O QUE É ISSO?



Era quase o equivalente a um artista de circo: "ladies and gentlemen, apresento-lhes [insira nome circense aqui] com a canhotinha".


Tirando na Idade Média, onde você era queimado por isso; se fosse ruivo e mexesse com plantas medicinais, então... De forma algum quero dizer que a vida de um canhoto é comparada a de pessoas que sofrem agressões verbais e físicas, por aí. E eu acho que esses agressores deveriam ser presos e obrigados a passar algumas noites sem dormir! (Gustavo, qual é o limite até você quase perder o juízo?).

O fato é que é bem chatinho viver num mundo que é ao contrário DD:
E olha aqui de como os canhotos são chamados (do site http://www.mundocanhoto.cjb.net/)
"Já o que é esquerdo, também é sinistro em italiano e no português mais arcaico; sinistro, em diversas línguas neolatinas, tem um peso negativo, até assustador. Em inglês, esquerdo é left, usado ainda como particípio do verbo to leave, com freqüência sinônimo de abandonar, sair, escapar. Em francês, é gauche, palavra usada para definir pessoas sem jeito, fora do eixo, desajustadas, inaptas"

Agora o que vocês têm que fazer é dar um doce (no meu caso não porque eu não gosto e a pressão baixa não deixa) pro seu coleguinha canhoto, abraçá-lo e dizer que o mundo não seria o mesmo sem ele *-*


Obs1.: eu sei que deveria ter investido na esgrima, ou no tênis, em vez de no ballet :x
Obs2.: sim, eu sei que tem uma loja pra canhotos nos EUA, mas é lá e não aqui *compra passagens pra ver o parque do Harry Potter*
Obs3.: eu vi minhas blusas do Brasil na minha cama e bateu um sentimento DD: