domingo, 17 de abril de 2011

Cidade maravilhosa, também conhecida como... RIO

Explicando, ontem eu vi RIO. Eu meio que me empolguei com esse filme desde que fiquei sabendo que seria feito. É um projeto antigo e ambicioso do Carlos Saldanha (o da Era do Gelo, gente xD) e que deu trabalho tanto pra ser aprovado, quanto pra animar. Meu, animar bicho que voa não é fácil, não. É só ver a dificuldade que foi pro Walt Disney fazer Peter Pan o.o

Mas vamos primeiro à história.
Blu (é sem o "e" mesmo!) é uma ararinha-azul e se alguém se lembra
disso, já sabe que esse é um dos símbolos do Brasil. Ele vivia feliz na floresta até que é raptado por contrabanditas de aves e levado para os Estados Unidos. Lá, como em outros um milhão de filmes, a gaiolinha dele cai e a pobre ave é salva por uma garotinha. A partir desse dia, eles se tornam bico e alpiste inseparáveis e a garota acaba domesticando o Blu.
Um belo dia aparece um cara estranho, com um cachecol verde e amarelo (porque é assim que brasileiros se vestem em outros países \fikdik), e diz ser um ornitologista e que o Blu era o último macho da espécie e por isso deveria ir até o centro de pesquisas que fica na capital do Brasil no Rio de Janeiro e procriar com a ararinha-azul fêmea. Até aí uma aula de biologia e a promessa de cenas de sexo -NOT.
O problema é, no centro de pesquisa, as duas ararinhas são raptadas por contrabandistas - de novo ¬¬ - e acorrentadas uma a outra. Detalhe: a arara fêmea, Jade (ou Jewel) ODEIA o Blu. Mas, graças à ao fato do Blu ser nerd inteligência analítica do Blu, elas escapam, mas acorrentadas. E nisso surge o maior problema: BLU, UM PÁSSARO, NÃO SABE VOAR! Tem que ver isso ae...

Fica fácil perceber que o desenrolar da história será ararinhas querendo se libertar - briguinhas de casal que não são um casal - contrabandistas atrás da mercadoria que fugiu - dona do Blu + estudioso atrás das aves - final feliz.

Eu vi muita gente falando mal do filme! Claro que o roteiro não é dos melhores, aliás, se fosse mais uma animação de bichinho em 3D se passando em mais uma cidade dos Estados Unidos, você simplesmente teria mais um filminho pra Sessão da Tarde pelos próximos 10 anos. E pelamordedeus, moça independente, leia-se: a Jewel, e rapaz desajeitado e inseguro, leia-se: Blu, já deu né? A graça de Rio está na animação estonteante e na trilha sonora que é F-A-N-T-Á-S-T-I-C-A! Quando eu vi um poster com um pássaro tocando maracas fiquei com vontade de queimar todos os arquivos do filme. Meu, maracas, seriously? Já até imaginei as roupinhas de babados e o povo mostrando *insira dança hispânica aqui* como se fosse samba. FAIL. Adorei quando vi que isso foi superado: a trilha é uma mistura de samba, bossa nova (inclusive, Nico, o passarinho amarelo, é quem evoca esse lado da bossa nova, em contraste com seu amigo, Pedro, que é funkeiro do proibidão que só), samba eletrônico, e novos arranjos pra músicas brasileiras antigonas. Amei esse resgate.

E aqui esbarramos em um ponto bastante criticado. Brasileiro é borderline; ama o país numas horas e odeia em outras. No cinema isso se traduz em se você faz um filme só mostrando os problemas, não enxerga o que o país tem de bom e merece morrer; se você faz um filme mostrando as coisas bonitas do Brasil, é ufanista e merece morrer.


Acho até que Rio se saiu muito bem, sem pesar muito pra nenhum dos lados. Mostra as favelas, mostra Copacabana, mostra gente de tudo quanto é cor (o que quase nenhum filme sobre o Brasil faz!) Brincadeiras da genética. A gente se vê por aqui e mostra floresta também, o que eu acho um motivo de orgulho dizermos que ainda temos.
Claro que certas coisas clichezentas me irritavam, tipo a música que fala "eu quero festa, eu quero samba mimimi" Pra que isso? PRA QUÊ? Ou quando o ornitologista e a moça americana chegam aqui e é BEEEEEEM na época do Carnaval que todo mundo AAAAAAAAAAMA u.ú Bem desnecessário. Mas devemos lembrar que Rio não é Tropa de Elite (e aqui já deixo meu recado pra galera que parece que queria que mostrasse o BOPE invadindo o morro num filme infantil AE \o/), nem Cidade de Deus. Esses dois últimos são filme feitos de cá pra lá, são pra brasileiros, acima de tudo. Rio é de lá pra cá, e já foi louvável o Saldanha ter conseguido quebrar certos padrões na forma como o Brasil é representado.
E quanto aos personagens bobos que muitos interpretaram como algo zoando o Brasil, eu não levei tanto assim pro lado pessoal. De personagens bobos e desajeitados as animações estão cheias.


Mesmo o roteiro sendo fraquinho e com um tema bem do jeito que estadunidense gosta, pelo menos eles não foram tão moralistas quanto em Rango, por exemplo, que era toda hora "OMG, os répteis vão ficar sem água, o que faremos, a gente vai morrer!", que queria dizer "tá vendo, humanidade, o futuro de vocês?". O lance do contrabando é mostrado, mas não precisou de ninguém ficar falando que é errado em um discurso com muitos violinos ao fundo e o personagem com cara de choro seguido de olhar corajoso. E ainda dá pra forçar uma análise sociológica de como o Brasil é cheio de contrastes: geral com iPhone na praia, enquanto Fernando, o garotinho da favela, com sua camisa da seleção, tinha que trabalhar pros contrabandistas em troca de um dinheirinho D:


Só pra terminar, é muito legal como o filme faz umas internas pros brasileiros. Tipo o jogo Brasil x Argentina que passa na TV, em um momento super divertido. A galera do futebol até sabe da rivalidade, mas acho que só os brasileiros e os argentinos sabem exatamente o que é isso. Outra interna legal foi quando o Blu imitou o ornitologista e começou a falar com um sotaque carioca daqueles carregadíssimos. Não sei como isso ficou em inglês, pois vi dublado, mas na sala de cinema TODOS riram (btw, thumbs up porque os bichos não falam de verdade com os humanos). E, claro, quando o Luiz vem com um "daqui não saio, daqui ninguém me tira"; referência óbvia à marchinha de carnaval de 1900 e bolinha =D


O filme o tempo todo brinca com essas coisas, jogando umas internas pros brasileiros e deixando aquela sensação de reconhecimento, como nas tomadas aéreas do Rio de Janeiro que todo mundo já tá cansado de ver.

O filme é sobre o Rio? É. Tem samba? Tem. Tem Carnval? Tem. Você se reconheceu ali? Não muito. Tudo isso é clichê? É. Mas quer saber? Eu gostei bastante. Não é genial e tudo mais, mas acho que até tem chances num futuro Oscar, de verdade. E eu ficaria bastante feliz se ganhasse. Agora só quero ver qual vai ser a escola de samba que vai falar de pássaro ano que vem =DD Grande Rio sendo óbvia? Beija-Flor sendo redundante?