domingo, 22 de julho de 2012

A coroa furada, digo, sagrada

  A BBC resolveu sabe-se lá  porque fazer uma temporada especial para Shakespeare, com documentários, programas de rádio e filmes. Os filmes em questão formaram uma minissérie chamada The Hollow Crown, constituída pela tetralogia Richard II, Henry IV Part 1 e Part 2, Henry V.
Richard II. Sim, é o mesmo cara que destilava mulheres
em "Perfume".
  Richard II conta a história da decadência do reinado desse rei sassy que se vê no meio de uma guerra civil liderada por seu primo, que tinha sido banido, Henry de Bolingbroke e outros tantos nomes. Bolingborke assume o trono e fica com o nome de...
... Casos de Família Henry IV, que nos mostra o rei, agora o Jeremy Irons um senhor já cansado que tem de lidar com mais guerra civil falta do que fazer é fogo e com seu filho, o príncipe Hal/Harry/Henry, completamente desnaturado, que tem como melhores amigos os ladrões, as prostitutas e vive na taverna Cabeça de Javali. há rumores de que a história se passa em Hogsmeade.
  "Henry IV" pode até parecer uma típica história coming-of-age, aquelas que mostram o amadurecimento de uma pessoa durante o enrendo. Nesse caso é a transformação de Hal de um playboyzinho irresponsável em alguém digno de assumir o trono. (Mas isso depende de sua interpretação, da do diretor e da do ator). E quando ele assume o trono vamos direto para...
...Henry V. Aqui o grande plot é a batalha de Agincourt, uma das batalhas da Guerra dos Cem Anos, na qual os ingleses, em número menor, liderados por seu amado rei, Henry V, venceram os franceses.
   Qual é a graça de assistir "The Hollow Crown"? Porque é Shakespeare, ou seja, texto bem feito, assassinatos, intrigas políticas e familiares, derramamento de sangue, e tudo isso sem ser uma versão moderna ou com texto atualizado, mas que ainda assim consegue te concentrar na história e fazer você se importar com o que vai acontecer depois. E sem aquelas atuações afetadas no estilo de  "vooocêê saaabe que eeestooou atuaaaando *muitos gestos*".
  "Richard II" foi de longe minha parte favorita! Ela difere em tudo das outras três: os tons pasteis, os atores, o texto em verso (que é uma delícia de ouvir)... Ben Whishaw, como o protagonista, desde sua primeira frase me conquistou. O cara fez um trabalho fantástico como o rei que não tinha qualquer controle sobre o que acontecia ao redor, muito frágil e afetado pra ser levado em conta, enfim, um personagem com camadas e camadas. Aliás, o elenco todo mandou muito bem. Eles conseguiram a façanha de pegar um simples "are you sure?" que no texto original é todo cheio de rebuscamentos e inversões, falar o texto original, mas manter a expressão e o tom de um simples "você tem certeza?". FANTÁSTICO!
FalstaffzzzZZZZzzz
  Meus problemas começaram com "Henry IV Part 1", porque a produção pareceu perder a mão completamente em alguns pontos (além de tudo parece muito mais "atuado" do que na primeira parte). Demorou um pouco pra eu entender que toda a empolgação em torno das três últimas partes tinha um nome: Tom Hiddleston. Eu mesma já tinha comentado que o tinha achado um ótimo ator (e isso foi em Avengers, gente. EM AVENGERS!), então tirar o cara de Thor que tem todo um Shakespeare feelings e colocar em Shakespeare de verdade seria como tirar um peixe do aquário e mandar pro mar! qual foi a da metáfora com o peixe? Mas aí veio a produção e apostou todas as fichas no cara e nós ganhamos um príncipe Hal com roupinha de couro, distribuindo sorrisos tá que o sorriso dele é um em um condado, porque ingleses não têm sorriso bonito, mas olha o exagero, né? e algumas poses. Mas o pior de tudo foi o personagem do Falstaff que deveria ser um gordinho engraçado, bêbado, trapaceiro, mas incrivelmente carismático ao ponto de fazer com que o Príncipe de Gales o considerasse seu melhor amigo. Faltou a parte do engraçado e do carismático. A preguiça me invadia a cada vez que ele aparecia... Na parte 2, então, a história foi embora e nem deu tchau. Nada acontece nessa segunda parte até os momentos finais com cenas bem legais envolvendo trono, coroa e um grande mal entendido. Fora ter me deixado por um tempo matutando se eu gostava ou não do príncipe Hal e se concordava com suas atitudes no final. Pelo menos Jeremy Irons tava divando, como sempre.
  Ainda bem que esse probleminhas foram superados na última parte e eu pude me divertir e chorar um pouquinho. só que não. em "Henry V" que é quase um dramão de guerra medieval. A tensão antes da batalha, as opiniões conflitantes (afinal a guerra nunca interessa à maioria que vai lutar nela), os monólogos do rei (mesmo aquele sem noção que consistiu em "vamos matar, derramar sangue e estuprar o/") e até o momento adorkable do rei pra se declarar pra princesa francesa fizeram essa última parte ser bem melhor do que as duas do meio, não deixando a impressão de que a minissérie se jogou em queda livre. Só achei bizarro todo mundo na França usar azul e os ingleses, vermelho.
Henry V pensando que é o Aragorn.
  Num geral, a produção é muito boa, indo bem além do padrão TV. Pode não ser a melhor opção pra ingressar no mundo de Shakespeare, mas com certeza foi feita de uma forma a conseguir um público maior do que o que acompanha esse tipo de história. Tá querendo ver algo e gosta da TV britânica, vá ver "The Hollow Crown" e de bônus saia trabalhado nos thou art, thee, doth do inglês arcaico (:

P.S1.: Tá, fiquei super garotinha romântica na cena do rei se declarando pra Catherine de Valois. Shakespeare, posso encomendar dois desse?
P.S2.:The Hollow Crown apresenta um mundo estranho em que Scar é pai do Loki. REFLITA.
P.S3.: Só fui descobrir depois que Richard II era filho do Edward of Woodstock. Esse era o meu figurante preferido n'O Arqueiro, do Bernard Cornwell...

Nenhum comentário:

Postar um comentário