segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Anna Karenina pensando fora da caixa

   Em 2008, o diretor Luiz Fernando Carvalho fez Capitu, uma adaptação de Dom Casmurro, mas em vez de uma minissérie convencional, estilo A casa das sete mulheres e afins, veio o anacronismo de músicas modernas sendo tocadas no século XIX, cenas que aconteciam em um teatro antigo e uma cena que nem sequer tinha cenário, mas sim os dois protagonistas desenhando tudo com um giz. A minissérie não fez muito sucesso, parte porque a Globo passava no horário mais inconveniente possível, parte porque não era exatamente o que o público estava esperando. 

   Anos depois, subindo um pouco pelo trópicos, Joe Wright resolve filmar Anna Karenina, clássico de Tolstói imensamente conhecido. Wright já havia feito Orgulho e Preconceito e todo mundo se apaixonou pelo Mr. Darcy e o premiado Desejo e Reparação, o que poderia dar errado? Foi durante o processo criativo que o diretor percebeu que adaptações de Anna Karenina - assim como de outros clássicos - jorravam a cântaros e por isso substituiu os palacetes interioranos, as atuações britânicas de drama de época e a filmagem tradicional por algumas coisas que causaram certa... estranheza.

         > Para Wright, a alta sociedade do século XIX era um grande teatro. Todo mundo mascarava suas verdadeiras emoções e sentimentos. Daí veio a ideia de, literalmente, filmar tudo em um teatro. A maior parte das cenas ocorre em um palco, com direito a troca de cenário e tudo. Tudo ricamente trabalhado, como só uma história russa poderia pedir, claro.
          > As atuações em vez de serem contidas e sutis, são exageradas e com maneirismos (algumas mais do que outras), e por vezes os atores se movimentam como se estivessem em uma dança com tudo coreografado. Parece fake, mas é essa a intenção.
          > O compositor Dario Marianelli sempre trabalha com Wright e já tinha mostrado que gosta de brincar com suas trilhas. Vocês lembram a máquina de escrever que servia de percussão no tema de Briony, a escritora, em Desejo e Reparação? Pois é, em Anna Karenina as brincadeiras continuam. Assobios, barulho de trem, um pastiche de uma canção russa que inspirou a 4ª Sinfonia de Tchaikovsky, esse tipo de coisa...
Balada russa do século XIX
   O saldo foi bastante positivo. Quando você se acostuma com a troca de cenários, a falta de vista exterior, o filme se torna um experiência, no mínimo, curiosa; a montagem bem feita nas transições de uma cena pra outra ajudam bastante. A afetação nas atuações passa a ser divertida e nem é tão descabido imaginar as pessoas agindo de forma tão fingida há quem faça isso até hoje. A trilha sonora é uma delícia (nessa temporada, divide o posto de minha preferida com As aventuras de Pi) e funciona muito bem no filme. E o figurino, claro que é uma coisa luxuriante!
   Então por que tanta comoção e por que os russos querem a cabeça de Joe Wright em uma bandeja?  Imagino que os russo quisessem uma bela homenagem e não um bando de alfinetada. Algumas pessoas reclamam da adaptação, que o Vronsky não é a epítome da virilidade (!!! quem no século XIX era?) e que o romance dele com Karenina não parece tão passional quanto no livro eu não li o livro, depois de passar um semestre lendo tudo de Dostoiévski que aparecia na minha frente, estou dando um tempo de coisas russas; bem, eu não indicaria essa adaptação para alguém que não conhece a história, é tudo muito experimental e com muitas licenças poéticas para ser levado ao pé da letra.
   No mais, não creio que Anna Karenina vá ser a adaptação da vida de ninguém, mas é bom ver as pessoas pensando fora da caixa, pra variar. Seja em um filme 80% CGI, ou um filme completamente sem linearidade ou em uma adaptação experimental de um romance tradicional aclamado por séculos. 
   Entendo quem odiou, ainda mais se a pessoa foi assistir esperando algo totalmente diferente. Porém, o que seria do cinema sem uma inovaçãozinha de vez em quando? A própria palavra vem de movimento, não dá pra ficar estagnado no estilo que deu certo.

P.S1.: Alguns podem achar que aqui eu elogiei tudo o que eu não gostei em Os miseráveis. A diferença é que Os miseráveis foi um filme teatral, com uma péssima montagem, se passando por filme de época normal. Anna Karenina nunca disse que seria isso, e fica bem óbvio desde a primeira cena (:
XOXO Gossip Girl(s)
P.S2.: Vocês viram a Lady Mary fazendo ponta? E a Margaret de Boardwalk Empire, como sempre, a esposa sofrida.

6 comentários:

  1. Estou acabando de ler o livro. Quero terminar antes de ver o filme. Os escritores russos são maravilhosos!!

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  3. Lerei o livro antes de ver o filme.
    Gosto muito dos seus posts e videos =]

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  5. Li Anna Karenina ano passado, meu primeiro russo, gostei litros e oceanos, apesar de ter achado o personagem Lievin um saco zzZZ, o que me faz pensar que eu não gostaria muito de conhecer o Tolstói já que ele é seu alter ego xD
    Mas então, logo depois vi esse filme e devo confessar que gostei bastante da proposta, claro que não passa nem um quarto da densidade de emoções e sentimentos do livro, mas como vc mesmo apontou essa não foi a proposta. Eu, como leitora da obra, não acho que foi uma grande adaptação, mas tão pouco acho que foi ruim. Amei a proposta, os figurinos estão lindos, os cenários também e a trilha do Dario Marianelli linda perfeita <3
    Excelente resenha, como sempre. Devo confessar que me divirto litros com o humor ácido delas xD

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  6. Eu costumo sempre escrever essa ressalva nas resenhas desse filme de Ana Karenina que leio por aí: discordo em parte de quem põe como um dos pontos altos do filme o cenário pseudoteatral, pois é um recurso quase esquecido do meio para o final! O cenário começa com um ar meio onírico (meio viagem do Kunihiko Ikuhara) mas, à medida que a história vai se aprofundando, fica tradicional mesmo. Falta de recursos? Equívoco da direção? Ou foi tudo proposital? Jamais saberemos!

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