domingo, 1 de dezembro de 2013

Feliz aniversário, que tudo esteja azul, Doctor Who!

(Esse post não é um tratado sobre Doctor Who, apesar do tamanho. Ele só está grande porque traz a resenha não só do The Day of the Doctor, mas do An Adventures in Space and Time também.)

  Vamos falar sobre o especial de 50 anos, shall we?

    O especial dos 50 anos da série, chamado The Day of the Doctor - um nome óbvio, mas que funciona -, parece uma grande festa retrô. Ao mesmo tempo em que traz elementos da série clássica, ele leva a história para frente, apostando em mais muito anos de duração para Doctor Who (todos nós esperamos).

    Steven Moffat trouxe de volta um vilão da série clássica, os Zygons, que estão, bem, tentando dominar o planeta, esse tipo de coisa que ETs gostam de fazer... Galáxias de distância, em Gallifrey, John Hurt, ou como estão chamando, The War Doctor, está - adivinhem! - no meio da Time War, bem na hora em que decide acabar com tudo aquilo usando uma arma letal, o Momento (pausa para: eu adoro como o nome das coisas envolvidas na Time War tudo tem nome relacionado ao tempo: The Moment, The Meanwhiles, The In-Between). Por motivos de timey wimey, o War Doctor, o 10º e o 11º se encontram e John Hurt se vê vivendo seu próprio plot de Um Conto de Natal, tendo que se confrontar com o seu eu futuro - nesse caso, seus eus -, consequência de suas ações na Guerra do Tempo.

    Ok, mas na verdade o plot é: vamos colocar David Tennant e Matt Smith juntos, tragam Billie Piper de volta, porque eles são os favoritos! Ah, vamos explodir um pouco a cabeça do pessoal colocando um Doutor nunca citado, só porque eu sou Steven Moffat.

    Por um lado há uma aventura simples, com gostinho de episódio stand-alone tipicamente britânico, por outro lado o episódio envolve um dos maiores eventos do Novo Who: a Guerra do Tempo.


   O roteiro é uma delícia, lotado de comentários espirituosos e referências a torto e a direito para todos os tipos de fãs e muito, repito, muitas surpresas. O 3D não é exatamente um Hobbit ou um As Aventuras de Pi, mas aí também é difícil comparar, porém funciona perfeitamente nos momentos em que deve funcionar (aqueles quadros ficaram maravilhosos!), e os efeitos... Ah, os efeitos! Quem diria que essa é a série dos manequins megaevils? Proporcionalmente, aquelas cenas da Time War ficaram tão bem feitas quanto os últimos dias de Krypton. 


  O episódio foi bem mais leve do que fomos levados a acreditar que seria, o que achei digno, afinal é um aniversário! O Doutor do John Hurt, que parecia bem assustador na season finale da 7ª temporada, é uma fofura, e certeza que já ganhou um lugar entre aquelas corujinhas lindas; apesar de ser o mais velho, ele conseguia ser muito mais jovial que os outros dois, que, teoricamente, são mais velhos que ele (Isso fez mais sentido na minha cabeça, mas você entenderam!). A química entre os três não poderia ter funcionado melhor!


    E então começam os problemas. Dois problemas, pra ser bem específica.
1 - Pobre Clara. Clara ex machina. Até agora não tivemos nenhum insight real de quem ela seja como pessoa, porque os roteirista a tratam como um instrumento de roteiro. Achei forçadíssimo ela fazer aquele discurso que convence o 11º a não destruir Gallifrey. C'mon, o Doutor foi muito mais aberto sobre isso com a Rose (que nem de longe é minha companion favorita) e sempre deixou bem claro que foi necessário o que ele fez. 

    O que nos leva ao segundo problema: 
2 - A solução para a Guerra do Tempo. Moffat é como uma criança gênio birrenta, ele é um excelente contador de histórias, mas não consegue ser um showrunner sem mudar tudo. Desde o reboot no universo da 5ª temporada, me pareceu que o Moffat, por algum motivo desconhecido, tenta apagar as coisas que Russel T. Davies, seu antecessor, fez. Agora ele atacou o background dramático do retorno de Doctor Who, o fato do Doutor ser o último dos Time Lords, ele ter destruído o próprio planeta, porque os outros time lords tinham passado dos limites, porque aquela guerra não foi só por causa dos daleks! Eu sempre quis que dessem um jeito de trazer os time lords de volta, Gallifrey de volta, pensem em quantas histórias e personagens fantásticos podemos ter, mas não do jeito desrespeitoso que Steven Moffat fez.


Também queria saber, Jackie...

    No saldo, o episódio foi algo muito mais empolgante pela experiência que eu tive e relato nesse vídeo.
Mas essa não foi a única homenagem que Doctor Who teve nesse dia, o que nos leva ao...

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"C.S. Lewis meets HG Wells meets Father Christmas."


    Se tem um tipo de filme que eu adoro, são os de bastidores, então, desde o começo, já estava apaixonada pela ideia do An Adventure in Space and Time. Mark Gatiss é um nome um tanto assustador quando associado a Doctor Who, porque desde 2005 parece que o cara não acerta uma no roteiro, mas aqui ele mostra que pode até não conseguir escrever para Doctor Who, mas definitivamente sabe escrever sobre Doctor Who.

  A premissa de Adventure é simples: contar como foi a produção dos primeiros anos de Doctor Who, quando uma mulher e um anglo-hindu - no contexto dos anos 60, não as pessoas mais respeitadas no ambiente - assumiram, respectivamente, como produtora e diretor de uma série de ficção científica que tinha tudo para dar errado! Basicamente, uma história sobre sambadas na cara!

        
   O filme começa alternando entre as conversas da produção sobre como fazer funcionar uma série como uma premissa tão duvidosa quanto "um senhor, que é um alienígena, viaja no tempo e espaço com sua netinha e os professores dela, que descobriram o segredo da garota" e a busca do ator William Hartnell por um papel diferente para interpretar, pois estava cansado de sempre fazer a mesma coisa.

   Antes de ser um filme sobre bastidores, ao estilo Hitchcock,  An Adventure in Space and Time é uma carta de amor a Doctor Who. O filme, apesar de abordar apenas os três anos em que Hartnell foi o Doutor, não deixa de conter um feeling de amplitude, porque todos nós assistindo sabemos onde isso vai dar 50 anos à frente.

   David Bradley, claro, nailed it! O cara que vai de Argo Filch ao senhorzinho injustiçado em Broadchruch, do nosso favorito, Lord Frey, ao Primeiro Doutor não podia fazer menos. Um dos momentos mais fofos é quando ele está respondendo cartinhas e dando autógrafos no parque, uma graça!

Sentimentos conflitantes D;

    Aliás, todos os atores estavam muito bem, e uma das coisas mais legais nesse tipo de filme é ver um ator tendo que interpretar outro ator, ainda mais quando a época e o estilo de atuação são tão diferentes.

    E vamos falar da coincidência de datas, que pelo menos eu nunca tinha associado até esse ano, em que as notícias variavam entre "Doctor Who faz 50 anos" e "50 anos do assassinato de J.F. Kennedy". A sequência inteira foi espetacular, associando a narração do script sobre os daleks ("Exterminate! Exterminate!") à notícia da morte do presidente.

    De certa forma, Doctor Who é um produto de sua própria época, o auge da Guerra Fria, em que a Rússia era um vilão feio megaevil e a imaginação nunca foi tão longe quanto com a Corrida Espacial. Parece o lugar certo para um série de ficção científica começar.

Não era bem de você que eu estava falando... Mas serve também!

   Outra cena excelente é a da criação da música tema, a primeira inteiramente usando sintetizadores. E mais alguém ficou com vontade de recriar o som da TARDIS usando chaves?

    Aos poucos o filme vai dando as dicas das mudanças, e, ao final, ao mesmo tempo em que é triste ver William Hartnell saindo (detalhe que ele sai fazendo o David Tennant...), todos sabemos que é isso que fez a série durar tanto tempo. E deram um jeito de fazer desse um momento emocionante... Ah, vocês viram, vocês sabem o que aconteceu!

   P.S1.: Quando falaram do quão creepy é a primeira abertura, eu só tive mais certeza de que se eu fosse uma criança nos anos 60, a abertura de Doctor Who ia ser o que a abertura de Arquivo X é pra mim hoje = puro terror e pesadelos D;
   P.S2.: Tudo o que eu não chorei no The Day of the Doctor, eu chorei no An Adventure in Space and Time

   P.S3.: Já pode ter certeza de que o Mark Gatiss será o próximo showrunner?